Vou morar fora por um ano: o que vender, o que levar e o que guardar

(Tempo estimado de leitura: 6 minutos)

A passagem está comprada, a matrícula confirmada, e aí vem a parte que ninguém avisa que é a mais trabalhosa: decidir o destino de tudo o que você tem.

Na prática, você tem umas seis semanas e três pilhas para montar. Vender, levar e guardar. O problema é que a maioria das pessoas monta essas pilhas na correria da última semana, quando a decisão passa a ser tomada pelo cansaço. O resultado é quase sempre o mesmo: vende barato o que ia querer de volta e guarda coisas que nunca mais vai usar.

Este texto organiza essas decisões na ordem em que elas realmente precisam ser tomadas.

1. Comece pelo imóvel, porque ele define todo o resto

Antes de separar uma única caixa, resolva onde você mora. Essa decisão determina quanto tempo você tem e quanto espaço precisa liberar.

Se você aluga: a Lei do Inquilinato permite devolver o imóvel antes do fim do contrato pagando multa proporcional ao tempo que faltava, e não a multa inteira. Existe ainda uma exceção importante: quem é transferido pelo empregador para outra localidade fica dispensado da multa, desde que avise o locador por escrito com pelo menos 30 dias de antecedência. Se for o seu caso, junte o documento da transferência e faça a notificação por escrito.

Se você quer manter o aluguel: repasse a conta. Doze meses de aluguel de um apartamento inteiro para guardar móveis costuma custar muito mais do que guardar esses mesmos móveis em outro lugar. Manter o imóvel só compensa quando alguém vai morar nele.

Se o imóvel é seu: decida entre alugar mobiliado ou vazio. Mobiliado costuma render mais e resolve o destino dos móveis, mas aumenta o desgaste e a chance de discussão na saída do inquilino. Vazio significa que você ainda precisa dar um destino a tudo.

Uma coisa vale para os três casos: não deixe para resolver isso depois de embarcar. Resolver de longe custa caro e depende da boa vontade de terceiros.

2. A conta que separa o que vender do que guardar

Existe um jeito objetivo de decidir, e ele cabe em três perguntas para cada item:

  1. Quanto custaria comprar de novo daqui a um ano?
  2. Quanto vai custar guardar isso por doze meses?
  3. Esse item se desvaloriza parado?

Se o custo de guardar chega perto do custo de repor, venda. Se o item mantém valor, é difícil de encontrar ou tem valor afetivo, guarde. Parece óbvio escrito assim, mas é exatamente essa conta que a pressa faz a gente pular.

Um detalhe que muda o resultado: alguns itens se desvalorizam mesmo sem uso. Notebook, celular, TV e videogame perdem valor de mercado pelo simples passar do tempo. Vender antes de viajar rende mais do que vender um ano depois, guardado e uma geração de modelo atrás.

3. O que costuma valer a pena vender e o que costuma valer a pena guardar

Tende a ser melhor vender:

  • eletrônicos que você não vai levar, principalmente os que já têm dois anos ou mais;
  • eletrodomésticos de linha básica, como micro-ondas, ventilador e liquidificador, porque custam pouco para repor;
  • móveis de madeira reconstituída, o famoso MDF de montar, que raramente sobrevive bem a duas desmontagens;
  • colchão em fim de vida útil, já que ele não vai melhorar parado por um ano;
  • carro, se ficar parado. Doze meses sem uso significam bateria, pneus, fluidos, seguro e IPVA correndo do mesmo jeito.

Tende a ser melhor guardar:

  • móveis de madeira maciça e peças de família, que não se repõem;
  • eletrodomésticos grandes e em bom estado, como geladeira e máquina de lavar, cujo custo de reposição é alto;
  • ferramentas, equipamento de trabalho e instrumentos musicais;
  • livros, discos, coleções e material de estudo;
  • documentos, contratos, diplomas e registros;
  • itens afetivos, sem culpa nenhuma. Não existe obrigação de se desfazer de tudo para viajar leve.

4. O que levar na mala

A regra que funciona: leve o que é caro ou difícil de encontrar no destino, e compre lá o que é barato e pesado.

Roupa de cama, toalha, panela e utensílio de cozinha entram na segunda categoria em quase todo lugar do mundo. Ocupam mala e custam pouco no destino.

Já merecem espaço na bagagem:

  • documentos originais e cópias digitalizadas, salvas em nuvem e também offline;
  • medicamentos de uso contínuo, com receita e, quando possível, relatório médico traduzido;
  • óculos de grau reserva;
  • adaptador de tomada e cabos, que costumam ser caros comprados na pressa;
  • uma peça de roupa adequada ao clima da chegada, porque o primeiro dia raramente sobra tempo para compras.

5. Como preparar as coisas para ficarem doze meses paradas

Um ano é tempo suficiente para estragar o que foi guardado errado. Alguns cuidados que fazem diferença:

  • Roupas e tecidos: lave tudo antes. Resíduo de suor e alimento é o que atrai traça e mofo.
  • Colchão: guarde deitado, não em pé, e use capa respirável. Plástico totalmente vedado retém umidade.
  • Geladeira e freezer: limpe, seque muito bem por dentro e deixe uma caixa de bicarbonato dentro. Guardar úmida é receita de mofo.
  • Eletrônicos: retire pilhas e baterias removíveis. Bateria esquecida vaza e corrói o contato.
  • Livros e papéis: em caixas pequenas, nunca diretamente no chão. Papel absorve umidade do piso.
  • Móveis de madeira: desmonte o que der, guarde parafusos em saco plástico preso à própria peça e evite envolver a madeira em plástico direto.

E o principal: etiquete as caixas na lateral, não na tampa, e faça uma lista do conteúdo no celular. Você vai voltar daqui a um ano sem lembrar o que colocou onde.

6. A burocracia que só aparece quando dá problema

Essa parte não ocupa espaço físico, mas é a que mais gera dor de cabeça a distância:

  • Procuração. Deixe uma procuração para alguém de confiança resolver pendências no Brasil. Sem ela, qualquer imprevisto com banco, imóvel ou contrato vira um problema de fuso horário.
  • Linha de telefone. Mantenha um número brasileiro ativo, mesmo em plano pré-pago barato. Muito banco e serviço do governo ainda confirmam acesso por SMS.
  • Assinaturas e serviços. Cancele ou suspenda academia, streaming, internet e o que mais estiver no débito automático. Doze meses de serviço não usado somam mais do que parece.
  • Imposto de renda. Quem completa doze meses seguidos fora pode passar a ser considerado não residente, o que muda a forma de declarar. Se o seu prazo é de um ano ou mais, converse com um contador antes de embarcar.

7. Monte a caixa da volta

Essa é a dica que quase ninguém segue e todo mundo agradece depois.

Separe uma caixa com o que você vai precisar na primeira semana de volta ao Brasil: um jogo de cama, toalha, alguns utensílios de cozinha, carregador, uma muda de roupa de cada estação. Marque essa caixa de forma bem visível e deixe onde for fácil de alcançar.

Voltar de uma mudança internacional e ter que abrir vinte caixas para encontrar um lençol é um jeito ruim de começar.

Perguntas frequentes

Vale mais a pena vender tudo ou guardar? Depende do custo de reposição. Itens que se desvalorizam rápido, como eletrônicos, costumam compensar mais vendidos. Móveis de madeira maciça, eletrodomésticos grandes e itens afetivos costumam compensar guardados.

Posso deixar minhas coisas na casa de um familiar? Pode, mas trate isso como um favor grande e não como uma solução gratuita. Você está ocupando um cômodo da casa de alguém por doze meses e transferindo a responsabilidade pelos seus bens.

Com quanto tempo de antecedência devo começar? Seis a oito semanas é um prazo confortável. Vender leva tempo, doar exige agendamento e a última semana antes do voo sempre some mais rápido do que o planejado.

Como faço para saber quanto espaço vou precisar? Liste os móveis grandes e estime o número de caixas. A partir daí é possível calcular o volume aproximado. Empresas de armazenamento costumam ajudar nessa conta antes da contratação.

Onde deixar o que você decidiu guardar

Se a sua lista de "guardar" ficou maior do que cabe na casa de alguém, um self storage costuma ser o caminho mais simples. Você aluga um box do tamanho que precisa, fecha com o seu próprio cadeado e paga apenas pelo tempo que usar. Ninguém além de você e de quem você autorizar tem acesso ao que está lá dentro.

Na Espaço A+, dá para autorizar uma pessoa de confiança a acessar o box enquanto você estiver fora, o que resolve qualquer imprevisto sem depender de você estar no país. O primeiro passo é uma conversa rápida para entender o que você precisa guardar e definir o tamanho certo do box, para não sobrar espaço pago à toa nem faltar na hora de encaixar tudo.

Fale com um consultor da Espaço A+ antes de embarcar e resolva essa parte com calma.

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